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22 de abril de 2026Evento, realizado no Beneficência Portuguesa, em São Paulo, discutiu caminhos, soluções e impactos do avanço da doença
A obesidade e suas múltiplas implicações para a saúde pública, empresas e bem-estar estiveram no centro do encontro promovido pela Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV), realizado no hospital Beneficência Portuguesa, em São Paulo, no último 29 de abril. O evento reuniu especialistas de diferentes áreas para discutir desafios, lacunas no sistema de saúde e possíveis caminhos para enfrentar uma condição cada vez mais prevalente e complexa.
Com o tema “Obesidade e novos modelos de abordagem”, o encontro contou com a participação da vice-presidente da ABQV, Grácia Fragalá, e dos especialistas José Henrique Castro, Maria Edna de Melo, Kátia Audi, Débora Kinoshita Kussunoki, Elaine Brégola e Rosicler Rodriguez, mediadora do evento!
Epidemiologia mostra avanço da obesidade e correlação com outras doenças
Os dados apresentados por José Henrique Castro, médico do trabalho especialista na LWART Soluções Ambientais com gestão em saúde ocupacional e qualidade de vida, evidenciam a magnitude e a rápida evolução da obesidade como um dos principais desafios de saúde pública no Brasil e no mundo.
No Brasil, 68% da população adulta apresenta excesso de peso, enquanto 31% vive com obesidade — o equivalente a aproximadamente um em cada três brasileiros. O cenário é agravado pelo crescimento acelerado da condição, com aumento de 72% na prevalência em apenas 13 anos.
No contexto global, estima-se que, em 2025, 2,3 bilhões de adultos estejam com excesso de peso, sendo 700 milhões com obesidade (IMC ≥ 30 kg/m²). As projeções indicam que, até 2030, esse número pode chegar a 1,13 bilhão — um aumento de 115% em relação a 2010. Além disso, a obesidade está associada a cerca de 1,6 milhão de mortes prematuras por ano, superando os óbitos por acidentes de trânsito.
A progressão dos casos mais graves também preocupa. A obesidade classe II ou superior deve crescer até 2030 especialmente no Pacífico Ocidental (+362%) e no Sudeste Asiático (+301%), seguidos por África e Mediterrâneo (+215%) e Américas (+116%), reforçando o caráter global da epidemia.
Débora Kinoshita Kussunoki, médica psiquiatra com atuação em obesidade, síndrome metabólica e transtornos alimentares, destacou que o avanço da obesidade ocorre em paralelo ao aumento dos transtornos mentais, evidenciando a complexidade do problema.
Globalmente, os transtornos mentais atingiram cerca de 970 milhões de pessoas em 2019, com crescimento significativo após a pandemia de Covid-19, incluindo aumento de mais de 18% nos casos de depressão e 19% de ansiedade entre 2019 e 2021.
A relação entre obesidade e saúde mental foi destacada como bidirecional: pessoas com obesidade têm maior risco de desenvolver transtornos psiquiátricos, enquanto condições como depressão aumentam em até 71% a probabilidade de obesidade.
A psiquiatra também ressaltou que essa interseção ainda é pouco abordada de forma integrada. Pacientes com obesidade apresentam maior prevalência de transtornos psiquiátricos, o que impacta diretamente a adesão ao tratamento e os resultados clínicos.
O estigma foi apontado como um dos principais entraves. Mais de 50% dos pacientes com obesidade relatam experiências negativas com profissionais de saúde, e muitos evitam buscar atendimento por esse motivo.
Outro ponto central foi o impacto do reconhecimento — ou da falta dele — da obesidade como doença. Quando não reconhecida, há culpabilização do paciente, ausência de tratamento adequado, subnotificação em prontuários, negativa de cobertura por planos de saúde e abandono do cuidado. Por outro lado, o reconhecimento formal permite uma abordagem clínica estruturada, amplia o acesso a terapias eficazes, garante acompanhamento adequado e fortalece o vínculo terapêutico, melhorando a adesão ao tratamento.
Desafios no acesso ao tratamento
Durante sua apresentação, Maria Edna de Melo, especialista em Endocrinologia e Metabologia titulada pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, destacou lacunas importantes no cuidado à obesidade no Brasil. Entre os principais desafios estão a ausência de medicamentos para tratamento da obesidade no Sistema Único de Saúde (SUS) e o alto custo das terapias disponíveis, que podem ultrapassar R$ 1.700 por mês.
Outro ponto crítico é o acesso à cirurgia bariátrica, ainda limitado por longas filas e pela falta de critérios mais eficientes de priorização. A especialista reforçou que programas estruturados de mudança de estilo de vida, com acompanhamento contínuo e equipe multiprofissional, são a base do tratamento e precisam ser ampliados.
Kátia Audi Curci, Assessora de Estímulo à Inovação e Avaliação da Qualidade Setorial da ANS (Agência Nacional de Saúde), trouxe a visão regulatória sobre o tema. Segundo ela, o modelo assistencial vigente foi estruturado para condições agudas, e não para o cuidado contínuo. Isso gera fragmentação, foco em procedimentos em vez de desfechos, baixa coordenação entre níveis de atenção e atuação predominantemente reativa.
Como consequência, há baixa efetividade no manejo de condições crônicas como a obesidade, além de custos elevados, menor eficiência e pior experiência para o beneficiário. Em síntese, o sistema ainda está voltado para tratar eventos, e não para cuidar das pessoas ao longo do tempo.
Como alternativa, ela destacou a necessidade de migrar para um modelo de cuidado contínuo, estruturado e centrado no paciente. Esse modelo começa com a identificação precoce de riscos, com olhar ampliado além do IMC, seguido por acompanhamento contínuo, coordenação do cuidado e avaliação de desfechos clínicos, qualidade de vida e uso de serviços.
Caminhos possíveis
Dra. Elaine Brégola, médica especialista em ginecologia e obstetrícia, com atuação em auditoria médica e responsável técnica pelos planos de saúde da Fundação Copel, apresentou uma perspectiva prática sobre o enfrentamento da obesidade na saúde suplementar.
A médica apresentou um programa baseado na metodologia Slimpass, estruturado a partir de um modelo preventivo e multidisciplinar. Em três anos, foram reduzidos mais de 5 toneladas de peso, com mais de 800 pacientes atendidos. O programa também gerou redução significativa de custos para a operadora e diminuição de doenças associadas, como a Hipertensão Arterial.
A apresentação também destacou o desafio crescente da incorporação de novas terapias, especialmente farmacológicas, reforçando a necessidade de equilíbrio entre inovação, acesso e sustentabilidade no sistema de saúde.



