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Evento internacional - Encontro lusófono sobre qualidade de vida no trabalho: perspectivas para 2021

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Qualidade de vida dos profissionais no foco da atenção é a chave para o sucesso das organizações

Alto nível de satisfação dos colaboradores faz companhias alcançarem o lucro desejado

O ano de 2020 foi, no mínimo, atípico, no qual a pandemia do novo coronavírus, o isolamento social e um medo generalizado forçaram a mudança de maneira rápida na rotina de todas as pessoas.

As organizações tiveram que se adaptar rapidamente a uma nova rotina nunca imaginada, assim como os colaboradores, que tiveram que aprender de uma hora para outra a utilizar soluções digitais e tecnológicas, trabalhar de casa, lidar com o medo e a insegurança do que ia acontecer e ainda dar conta de suas tarefas profissionais, familiares e pessoais.

E toda essa novidade impactou profundamente a cultura das empresas e vai modificar as principais tendências sobre a qualidade de vida no trabalho (QVT) para os próximo anos.

Para saber o panorama atual e as expectativas sobre a saúde e bem-estar dos colaboradores nas organizações em países de língua portuguesa, a Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV) promoveu, no dia 10 de fevereiro, o evento internacional “Encontro lusófono sobre qualidade de vida no trabalho: perspectivas para 2021”, que contou com a participação de profissionais da área da Angola, Brasil, Cabo Verde, Guine Bissau, Moçambique e Portugal.

A pandemia obrigou, segundo Tiago Santos, docente de atividade física em contexto laboral, personal training, mestrando em Saúde Pública e Promoção de Saúde e fundador e diretor-executivo da WorkWell, em Portugal, as empresas a dotarem novas formas de trabalho, como o teletrabalho, o que trouxe para 86,8% dos gestores que participaram de uma pesquisa sobre o tema impactos negativos às organizações economicamente e para a gestão de pessoas.

O cenário atual também evidenciou, na visão de Santos, que as instituições lusitanas ainda estão bem atrás de outros países, como os Estados Unidos e Austrália, quando o assunto é programas de qualidade de vida para os trabalhadores, pois, apesar da adaptação ao meios digitais, no cenário atual as organizações ainda não colocam os indivíduos como o pilar mais importante das companhias.

“As pessoas devem ser o centro das instituições e o cuidado com a QVT deve estar presente em todas as empresas, pois ao ter colaboradores saudáveis e satisfeitos com o trabalho, as empresas tendem a ter resultados melhores e o lucro tão desejado pode ser alcançado”, garantiu o educador físico.

Na estudo promovido pela WorkWell, os gestores portugueses até reconhecem o impacto positivo de um programa de saúde e bem-estar corporativo, principalmente em momentos mais exigentes como o atual, e 94,5% responderam que pretendem promover a qualidade de vida para seus colaboradores nos próximos seis a doze meses.

Embora reconhecida a importância de cuidar das pessoas em sua integralidade, muitas vezes não é uma prioridade.

Dos principais fatores identificados para não implementação de programas de saúde e bem-estar em Portugal, a principal é a falta de budget. O motivo, na visão de Santos pode ser o reflexo da economia portuguesa constituída 99,9% por pequenas e médias empresas.

Outras razões para não implantar programas de QVT são a falta de sensibilização dos gestores e líderes; dificuldade em identifica as necessidades da empresa para aplicação das iniciativas certas; falta de tempo e capacidade interna para a implementação.

“Abordar saúde dentro de uma empresa vai muito além de oferecer planos e seguros de saúde. É investir em ações que façam sentido para os colaboradores e que mudem, de verdade, a vida deles para melhor”, ressaltou Santos, que disse ser imprescindível se pensar na saúde do trabalhador em sua integralidade: postura e ergonomia, saúde mental e desenvolvimento pessoal.

“É importante ter em mente que é a sua equipe que faz a sua empresa acontecer e que entrega bons resultados. Por isso, atividades que envolvem o bem-estar dessas pessoas devem fazer parte da rotina das organizações sempre, não somente em momentos de crise”, garantiu Tiago Santos.

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram a necessidade de mudanças urgentes nas relações entre empresa e funcionário. A síndrome do esgotamento profissional – o Burnout –, que será reclassificada como doença a partir de 2022, devido a sua seriedade, já afeta 32% dos trabalhadores brasileiros, o que mostra que somos um dos países mais impactados em todo mundo, perdendo apenas para o Japão, com 70%.

Essa questão é levantada pelas principais companhias, que já percebem os efeitos desse problema na própria receita. Empresas americanas perdem cerca de U$ 150 bilhões ao ano por conta de funcionários estressados, isso engloba – entre outras coisas – o absenteísmo e o presenteísmo, que são as ausências e a presença do funcionário com a mente em outra tarefa. Para evitar as perdas, alguns cuidados estratégicos precisam ser desenvolvidos.

Para mediadora do evento internacional, Ana Cristina Limongi-França, psicóloga organizacional e do Trabalho, professora da Universidade de São Paulo e membro do Conselho Deliberativo da ABQV, alcançar excelentes resultados é o que deseja toda empresa e todo trabalhador. “Mas o fato de as instituições terem a consciência de que é a QVT que proporciona a geração de resultados expressivos, já é um primeiro passo para a implementação de ações em benefício da saúde dos colaboradores”, afirmou.

O médico e mestre em Gestão de Saúde em Angola, Emilio Agostino Alberto, concorda que o nível de satisfação dos colaboradores é um ponto-chave para entender a qualidade de vida no trabalho e é uma questão importantíssima, que cada vez é mais estudada.

“A QVT é uma forma de medir a relação que os empregados estabelecem com seu ambiente de trabalho. Trata-se principalmente da satisfação e da motivação dos colaboradores, e como isso impacta a performance dos membros e a produtividade geral de uma organização”, argumentou Alberto ao explicar que em seu país há uma normatização constitucional que regulamenta a segurança e a saúde ocupacional dos trabalhadores, responsabilizando as companhias e seu gestores pelo bem-estar dos seus funcionários.

No entanto, os programas angolanos ainda são restritos apenas a satisfação que os profissionais têm com a função que exercem diariamente nas empresas. Mas, o médico diz que é preciso ir além. “Analisar o contexto e o meio onde cada colaborador está inserido é importante, desde o básico, como saneamento, educação e alimentação, até a especialização de suas competências. É preciso pensar que sem qualidade de vida no trabalho os resultado serão sempre os mesmos: menor produtividade, maior turnover e menor capacidade de atrair e reter substitutos bem qualificados”, justificou.

Muitos desafios

Rosalina Semedo de Andrade Tavares, professora adjunta e Diretora do Instituto de Ciências Sociais Aplicadas da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), concorda com o médio angolano e lembra que em Cabo Verde, país em que a maioria dos trabalhadores são informais ou ligados ao turismo, a pandemia impactou bastante e trouxe muitos desafios.

“A OMS preconiza que saúde não é só a ausência da doença, mas, também, o completo bem-estar biológico, psicológico e social. É preciso devolver a garantia de um futuro melhor – e todos os âmbitos – para os trabalhadores que estão em home office como para os que atuam na informalidade”, salientou a professora. 

Ela frisou que o desafio é repensar os objetivos do desenvolvimento sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU), porque se eles forem cumpridos, podem proporcionar a tão sonhada qualidade de vida.

“Com a erradicação da pobreza e da fome de todas as maneiras garante-se a dignidade e a igualdade; proporciona-se vidas prósperas e plenas em harmonia com a natureza e, com isso, haverá a promoção de sociedades pacíficas, justas e inclusivas, a partir da implementação de uma parceria global sólida, que também atuará na proteção dos recursos naturais e do clima do nosso planeta para as gerações futuras”, garantiu.

Em Guine Bissau, onde a realidade é bem parecida com a de Cabo Verde, Bassiro Só, professor e coordenador de Pesquisa dos cursos de Administração e Ciências Contábeis do Centro Universitário Adventista de São Paulo Campus Hortolândia (UNASP-HT), a pandemia fez as instituições públicas promover ações que visem a organização social, com o objetivo da promoção a contínua qualidade de vida do povo e a eliminação de todas as formas de sujeição da pessoa humana a interesses degradantes, em proveito de indivíduos, de grupos ou de classes.    

“A saúde pública tem de promover a saúde física e mental da população e a sua equilibrada inserção no meio em que vive. Ela tem de orientar para a prevenção e visar a socialização progressiva da medicina e dos setores médicos e de medicamentos”, ressaltou Só.

Já em Moçambique, segundo a doutora em Ética e mestre em Gestão Estratégica de Recurso Humanos, Imeldina Eduardo Matimbe Rego, as medidas restritivas impostas de combate e prevenção da Covid-19 influenciou sobremaneira a QVT, uma vez que as organizações tiveram que reformular suas estruturas levando em conta a implementação de mediação de prevenção à doença. 

“As perspectivas para a qualidade de vida para 2021 é superar os desafios de aprender a trabalhar com o novo normal: com o distanciamento social, máscaras, etiqueta da tosse e lavagem constante das mãos. O uso das plataformas digitais para reuniões e outra atividades, assim como outras ações de prevenção e combate à Covid-19 estão no centro de atenção do cuidado com os trabalhadores, assim como de toda a população”, contou Imeldina.

Papel do gestor

Retratando o cenário brasileiro da qualidade de vida no trabalho, a psicóloga, mestre em Neurociências e Comportamento e vice-presidente da ABQV, Sâmia Simurro, comentou que soluções coordenadas e equações racionais, assim como equidade, são fundamentais para mudar a cultura organizacional, ensinar os líderes a darem orientações para suas equipes para levar à integralidade da saúde e bem-estar dos colaboradores e, dessa forma, promover melhor a gestão.

“Momentos de crise nos tornam mais criativos e podem despertar insights que trazem melhorias para a organização. Somos movidos por desafios", destacou Sâmia, que lembrou que a QVT aumenta a cooperação entre as partes e faz com que solucionar problemas se torne algo mais assertivo, dando voz a todos e trazendo também diversidade nas soluções propostas.

Além disso, a empresa necessita se mostrar apta a oferecer condições de trabalho satisfatórias. Precisa, também, de uma cultura organizacional capaz de motivar os colaboradores a irem além. 

 “Nesse processo é necessário compreender que conflitos acontecem em todas as organizações e solucioná-los juntos torna o time mais forte. Afinal, o sucesso da empresa depende da saúde física e mental dos trabalhadores”, finalizou.

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