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Webinar - As relações familiares em tempos de isolamento social

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Isolamento social exige adaptação familiar

Diálogo, organização e criatividade podem ajudar a família a manter o equilíbrio emocional durante a pandemia e evitar a violência

 

O isolamento social necessário durante a pandemia do novo coronavírus propiciou uma grande mudança na rotina em todo o mundo. Muitas empresas migraram seus funcionários para o sistema home office e escolas e creches estão fechadas em tempo integral. Dessa forma, milhares de famílias estão experimentando o convívio juntas, por tanto tempo, pela primeira vez, o que requer muito diálogo, organização, criatividade para manter o equilíbrio emocional do grupo familiar. 

“O confinamento é uma condição bastante delicada e demanda tolerância e flexibilidade para evitar desentendimentos. A pandemia mudou a forma das relações pessoais e, como seres humanos, temos de nos adaptar aos novos tempos”, analisa a advogada e terapeuta sistêmica, Ana Carolina Escobar, que participou do webinar “As relações familiares em tempos de isolamento social”, promovido pela Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV), em 20 de maio. 

Ela explica que diante do cenário atual todas as relações pessoais, familiares, conjugais, profissionais e sociais estão sob tensão devido a mudança no padrão relacional, pois a maioria das pessoas tinha sua realidade estruturada com o externo. “Saíamos para trabalhar, passear, encontrar pessoas e agora a realidade ficou diferente. Tudo acontece ao mesmo tempo dentro de casa e isso acaba asfixiando e tensionando as relações pelo excesso de exposição e falta de privacidade. A obrigação do confinamento mudou o nosso modo de viver e o festival de incertezas que vivemos ainda traz a instabilidade emocional.”

Para enfrentar a quebra de paradigma, a terapeuta sugere usar a criatividade, a organização e a resiliência para manter a qualidade vida de todos da família.  “Temos a tendência de buscar um culpado pela perda da estabilidade que até então se tinha. E como, nesse caso, não temos como voltar ao que era antes da pandemia, é preciso se adaptar buscando ferramentas que propiciem viver uma nova realidade, com menos estresse. Atividades que promovam a interação com todos da família e a divisão das tarefas ajudam bastante a promover o bem-estar dentro de casa”, acredita Ana Carolina. 

No relacionamento entre o casal, a sugestão é a divisão das tarefas, como num contrato, atribuindo quem faz o que, isso após uma boa conversa. A terapeuta afirma que cada um fazer o que gosta e dividir o que não gostam promove o equilíbrio e a cumplicidade, diminui o estresse e a tensão e promove a cumplicidade. 

Já na relação com os filhos, o relação deve ser de hierarquia, mas também de muito diálogo e organização. Uma roda de conversa para todo colocarem o que e como podem ajudar é bem proveitoso, segundo Ana Carolina. Ela propõe a realização de gincanas e jogos para estimular as crianças e adolescentes a cumprirem suas tarefas escolares e os afazeres de casa em que podem ajudar, como arrumar a cama, jogar o lixo, guardar a roupa, com a premiação por pontos ou brindes. Coisa simples, como escolher o filme a ser visto pela família, ou a sobremesa do dia. “O importante é criar uma dinâmica que traga leveza ao convívio familiar e promova a interação com os filhos. São pequenas mudanças que trazem bons resultados”, aposta. 

Também é importante os pais orientar os filhos sobre o que está acontecendo fora de casa e no mundo, sobre os riscos da doença, deixá-los informados, de forma coerente com a faixa etária, personalidade e grau emocional e, também das mudanças que precisam fazer para a proteção da família (hábitos de higiene, consumo de energia, água, entre outros). Os filhos, independentemente da idade, necessitam se sentirem protegidos e pertencendo a um grupo familiar. 

Não à violência

Com o isolamento social e convívio intensificado, o excesso de tempo juntos (muitas vezes inédito) e as dificuldades e incertezas decorrentes do surto do novo coronavírus, o que antes era motivo para bronca ou reclamação rotineira, hoje pode ser a razão para ligar o modo tolerância zero na convivência família. Aqui pode-se acender o botão de alerta. 

Esta afirmação é da psicóloga e gerente do Instituto Avon, Mafoane Odara, que também participou do webinar promovido pela ABQV no dia 20 de maio, que foi coordenado por Cecília Cibella Shibuya, diretora de Eventos da entidade, e Eduardo Bahia Santiago, diretor de Educação e Conhecimento da ABQV. 

“A rotina da maioria da população passou por mudanças diante do cenário atual e é preciso se justar a nova realidade, na convivência familiar e no trabalho. E como cada ser humano é único e reage diferente a exclusão social, e aí que as relações se abalam: pelas diferenças de sentimentos, percepções e recursos internos para lidar com as próprias emoções e a dos outros envolvidos”, explica Mafoane.

Para a psicóloga, a questão está em como enfrentar o que ela chama de três ondas da crise: como ela te afeta, como ela influencia a sua relação com o entorno (família) e como você se relaciona com o mundo (trabalho e a própria pandemia).

O primeiro passo, na visão de Mafoane, é encarar a situação com relações saudáveis, dinâmicas, com movimentos ora longe e ora perto. “As pessoas quando são paralisadas num polo, seja próximo ou não, tendem a destruição, pois ficam ‘sem ar’, sem espaço de individualidade, sobrecarrega-se os papéis de cada um e faz com que se exija muito um do outro até a exaustão. Tanto que o número de divórcios na China aumentou durante o período da quarenta”, conta. 

Por ser o confinamento uma condição bastante delicada, quando compartilhada com pessoas emocionalmente instáveis, pode chegar a casos extremos de agressões e violência. E o fato de estarmos vivendo um momento bastante difícil e repleto de perdas, no qual é preciso respeitar os limites de si mesmo e do outro, é preciso ser flexível e não hesitar em pedir ajuda, lembra a psicóloga. 

Mafoane acredita que as famílias e casais mais atingidos por esse contexto já viviam relacionamentos frágeis e conflituosos, muitas vezes perpassados por atos de violência, que é potencializada pela aproximação forçada a qual atualmente nos submetemos. 

No Brasil a taxa de feminicídio é a quinta maior do mundo. Sete a cada dez mulheres são mortas dentro de casa segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). De acordo com o Núcleo de Gênero e o Centro de Apoio Operacional Criminal (CAOCrim) do Ministério Público de São Paulo (MPSP), em um mês, houve o aumento de 30% dos casos de violência doméstica e foi verificado o aumento das prisões em flagrante, em caso de violência doméstica. Foram 268 prisões naquele mês, contra 177 registradas em fevereiro. O número de medidas protetivas também subiu. Foram 2.500 em março contra 1.934 registradas no mês anterior. 

A psicóloga lembra que durante o período de isolamento social, as Delegacias de Defesa da Mulher, a Casa da Mulher Brasileira e Centros de Acolhimento continuam funcionando. Também é possível pedir auxílio pelo 180 – Central de Atendimento à Mulher, que tem atendimento com foco no acolhimento, orientação e encaminhamento para os diversos serviços da Rede de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres em todo o Brasil, e pelo 190, da Polícia Militar. 

O importante, segundo Mafoane, é a mulher não se calar e buscar a comunicação não violenta, tentar reestabelecer as relações de afeto com harmonia e calma. “É inegável que em tempos de crise, sendo essa de qualquer natureza, precisamos nos reinventar e entender que não temos o controle de tudo. Evite se preocupar com o que foge do seu controle e concentre-se naquilo que está em suas mãos”, ressalta. 

Ana Carolina Escobar acredita que lições terão de ser aprendidas com a pandemia e o isolamentos social. A principal será a união, ainda que a distância. “Penso que toda dificuldade é uma oportunidade. Obrigatoriamente, nessa situação, tivemos que olhar para o mais próximo. As pessoas precisaram aprender a conviver e a crescer nas virtudes da convivência, que é a paciência, a compreensão, saber ouvir, parar para prestar atenção ao outro. Talvez, a gente saia disso com a mentalidade diferente, mais evoluída sobre a atuação social de cada um.”

A população brasileira pode sair disso menos individualista também aposta Mafoane. “Como consequência indireta desse isolamento, o vírus nos devolveu a capacidade de sair do modo automático e desacelerar um pouco, refletir sobre as relações que queremos privilegiar e imaginar um futuro diferente para gente viver depois da pandemia. Espero que não sejamos os mesmos quando esse momento passar. Que possamos cada dia mais pensar no valor que imprimimos àquilo que temos e, principalmente, àquilo que desejamos”, conclui a psicóloga.

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