
Quiet cracking: o desgaste invisível que afeta a saúde mental e prejudica o desempenho profissional
26 de janeiro de 2026Quando a saúde mental no trabalho vira pauta e o colaborador compartilha uma queixa relacionada ao sofrimento psíquico ou emocional, o modo como essa situação é manejada faz toda a diferença, inclusive na construção de um ambiente organizacional mais saudável e acolhedor.
Logo, compreender os impactos de tais complicações, identificar sinais de alerta e saber como proceder de forma adequada são competências essenciais para quem lidera ou faz a gestão de pessoas.
O impacto das complicações de saúde mental no trabalho
O adoecimento psíquico é algo relativamente comum na sociedade como um todo. O Ministério da Saúde estima que em torno de 15% de toda a população terá ao menos um episódio depressivo ao longo da vida. Com isso, pode haver impactos significativos em todas as dimensões de um indivíduo, inclusive no âmbito profissional.
Além disso, as questões relacionadas à saúde mental no trabalho geram consequências que extrapolam parâmetros individuais, afetando toda a dinâmica organizacional. Entre alguns dos principais impactos estão a elevação de custos, a queda na produtividade, o aumento do absenteísmo e a elevação das taxas de rotatividade.
Conforme dados do Ministério da Previdência Social, os afastamentos por transtornos mentais duplicaram na última década. Enquanto em 2013 os registros eram de 203 mil casos, em 2024 foram mais de 440 mil (sobretudo por depressão, ansiedade e burnout, entre outros quadros).
Apesar disso, um dos maiores obstáculos para o enfrentamento adequado dessas questões é o estigma que ainda cerca os transtornos mentais. O preconceito faz com que muitos colaboradores evitem buscar ajuda por medo de serem vistos como fracos, incapazes ou inadequados para suas funções.
Essa barreira invisível não apenas agrava o sofrimento individual, mas também impede que as organizações identifiquem e abordem gargalos que afetam o clima organizacional.
Os sinais de que algo pode não estar bem
Antes que a queixa surja, notar sinais de que um colaborador está atravessando dificuldades relacionadas à saúde mental pode ser relevante para uma intervenção precoce.
Embora cada pessoa reaja de maneira única ao sofrimento psíquico, alguns indicadores merecem atenção especial:
- mudanças comportamentais persistentes afetando o desempenho no trabalho, como alterações no padrão de sono (insônia ou sonolência excessiva) e no apetite;
- isolamento social progressivo, quando colaboradores que antes eram comunicativos passam a evitar interações e demonstram desinteresse por atividades que anteriormente consideravam prazerosas;
- oscilações frequentes de humor, acompanhadas de irritabilidade aumentada e dificuldade de concentração;
- queda no desempenho profissional, especialmente quando associada a faltas recorrentes, atrasos constantes ou à presença no ambiente de trabalho sem que haja condições para o trabalho (o chamado presenteísmo).
É importante ressaltar que a presença de um ou mais desses sinais não confirma automaticamente a existência de um transtorno mental. Todavia, isso deve despertar a atenção para a necessidade de uma abordagem cuidadosa e empática por parte dos gestores e da equipe de RH.
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Quais as iniciativas adequadas para lidar com esse tipo de situação
Quando o colaborador manifesta uma queixa relacionada ao sofrimento psíquico ou emocional, o primeiro passo deve ser sempre o acolhimento respeitoso e livre de julgamentos. Ou seja, criar um espaço seguro onde a pessoa se sinta confortável para falar.
Durante o acolhimento inicial, profissionais de RH devem adotar uma postura de escuta ativa, demonstrando empatia genuína e validando as aflições expressas pelo colaborador. Após essa primeira conversa, é fundamental encaminhar o colaborador para profissionais especializados.
Empresas que contam com programas de assistência psicológica ou convênios com serviços de saúde mental devem, dentro do viável, facilitar esse acesso imediatamente.
Caso a organização não disponha desses recursos internamente, é pertinente orientar o colaborador sobre como buscar apoio profissional na rede pública ou privada. Do mesmo modo, a organização deve dispor da assistência necessária em caso de afastamento do trabalho, conforme contrato de trabalho ou legislação vigente.
Além do encaminhamento individual, avaliar se as condições de trabalho podem estar contribuindo para o sofrimento também faz parte de uma abordagem responsável.
Sobrecarga de tarefas, falta de reconhecimento e ambientes hostis são fatores que podem agravar ou desencadear problemas de saúde mental. Por isso, avalie e mitigue esse tipo de risco de modo apropriado.
No mais, implementar ações preventivas torna-se igualmente crucial. Isso inclui promover programas educativos sobre saúde mental, realizar pesquisas de clima organizacional regularmente e capacitar lideranças para identificar sinais de alerta e conduzir conversas sobre o tema.
Limites que devem sempre ser respeitados
Embora o acolhimento seja fundamental, profissionais de RH e líderes precisam ter clareza sobre seus limites de atuação.
O papel de ambos não é diagnosticar transtornos mentais nem atuar como médico ou psicólogo, mas sim oferecer suporte inicial e direcionar o colaborador para os canais adequados. Entre os principais cuidados que devem ser observados para isso estão:
- evitar perguntas invasivas sobre detalhes que não sejam diretamente relevantes para o encaminhamento, uma vez que questões específicas devem ser deixadas para profissionais de saúde mental;
- garantir confidencialidade, tratando informações com total discrição e compartilhando apenas com pessoas diretamente envolvidas no suporte ao caso, sempre com o devido consentimento;
- não tomar decisões precipitadas, como afastar o colaborador de suas funções sem uma avaliação adequada ou tratá-lo de forma diferenciada indevidamente, mantendo o equilíbrio entre cuidado e respeito à autonomia e dignidade da pessoa;
- estar ciente das responsabilidades legais relacionadas à saúde mental no trabalho, especialmente quando o sofrimento está relacionado a condições inadequadas de trabalho.
Em resumo, abordar adequadamente as questões de saúde mental no trabalho exige sensibilidade, conhecimento e estrutura organizacional apropriada. Mais do que uma obrigação ou estratégia de gestão, trata-se de um compromisso com o bem-estar das pessoas que compõem a organização.
Entenda agora por que quase metade dos profissionais considera que a saúde mental é um tabu no trabalho e o que deve ser feito para reverter isso.
Referências
Saúde mental: afastamentos dobram em dez anos e chegam a 440 mil
A importância do cuidado com a saúde mental no ambiente de trabalho
Atenção à saúde mental cobra novas práticas de gestão e combate a ambientes de trabalho tóxicos
Psychological Distress





